Neilza Santos

Crescer significa mudar e mudar envolve riscos, uma passagem do conhecido para o desconhecido.

Textos

Quase fomos nós
Pensei em nós.
De uma forma que nunca havia permitido antes.

Criei, em silêncio, um mundo paralelo — um lugar onde eu pudesse pertencer ao seu. E nele encontrei uma maneira de estar perto: tornei-me parte da sua família.

E gostei do que vi.

Você era exatamente como eu havia imaginado. Como sempre sonhei. Mesmo pertencendo a outra pessoa. Mesmo tendo uma família. Eu me sentia feliz… simplesmente porque você estava feliz.

Mas, quando percebi sua felicidade, decidi me afastar.

Até aquela noite.

A casa estava silenciosa. Eu escrevia no escritório, na casa da sua família, quando a porta se abriu devagar. A luz invadiu o cômodo antes de você. Meus olhos e ouvidos acompanharam cada detalhe.

Era você.

Veio pedir explicações.

Por que eu namorava justamente alguém próximo a você? Qual era a minha intenção?

Quase sem reação, respondi que aquilo era minha paixão. Você não acreditou. Disse que meu jeito de olhar não era normal. E me lembrou — com uma precisão dolorosa — que anos atrás eu havia me declarado.

Ri, sem jeito. Disse que não me lembrava. Assim como você havia feito naquele dia, quando abriu mão do que eu sentia e chamou de ilusão.

Mas, desta vez, você não negou.

Disse que, se fosse hoje, talvez fosse diferente.

Suas palavras atravessaram tudo em mim.

Você continuou — hesitante, mas firme:

— Minha filha poderia ser nossa. Essa aliança… era você quem deveria ter colocado no meu dedo.

O tempo, então, se partiu.

Você falou do medo, dos princípios, da vida que escolheu preservar. Disse que jogou tudo fora. Que hoje via o erro. Mas que não havia mais conserto.

Seus olhos estavam cheios.

Eu mal conseguia respirar. Meu corpo tremia. Meu coração parecia escapar do peito.

Naquele instante, entendi:

não era ilusão.
não era unilateral.
era real.

E isso doía ainda mais.

— Esperei tanto por isso — eu disse.

Mas pedi tempo.

E então nos interromperam.

A criança entrou pedindo uma história. Vocês saíram. E você se foi. E eu fiquei ali — só, imóvel, tentando entender o que fazer com um sentimento que finalmente tinha nome… e não tinha lugar.

Na manhã seguinte, não consegui descer. Meu corpo estava pesado, minha mente girava. Meu corpo estava ali — mas eu não.

Eu nunca estive.

Passei o dia tentando fugir de você. Da sua voz. Do seu olhar. Mas tudo voltava.

À noite, bateram à minha porta.

Pensei que fosse qualquer pessoa.

Mas era você.

— Posso entrar?

E entrou.

Eu ainda estava de toalha quando você me olhou. E, sem aviso, me beijou.

Um beijo profundo. Antigo. Esperado por anos.

E, naquele momento, não havia mais passado. Nem culpa. Nem medo.

Apenas nós.

Nos entregamos como quem sabe que não haverá depois. Como quem vive, em horas, tudo o que foi negado por anos.

Ao amanhecer, ainda éramos uma só pessoa.

Mas o mundo continuava existindo lá fora.

E a minha história paralela… terminou ali
Neilza Santos
Enviado por Neilza Santos em 04/05/2026
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